O Beijo – Auguste Rodin

E “O Beijo”, pela sensualidade que transmite, acabou se tornando uma das esculturas mais famosas de todos os tempos                                

O Beijo – AUGUSTE RODIN 

– E “O Beijo”, pela sensualidade que transmite, acabou se tornando uma das esculturas mais famosas de todos os tempos

“Histórias Estátuas”

E, 1879, Rodin foi contratado para fazer uma entrada para o Museu de Artes Decorativas de Paris. Para isso ele criou uma porta colossal inspirado na famosa obra literária “As Portas do Inferno” da “Divina Comédia” de Dante Alighieri.  Veja a foto abaixo:

As Portas do Inferno - Rodin - Museu Rodin

As Portas do Inferno – Rodin – Museu Rodin

Originalmente “O Beijo” faria parte de Os Portões do Inferno“, mas acabou se tornando uma escultura independente (assim como O Pensador”) e uma outra escultura, de outro casal de namorados, bem mais simples, foi posta em seu lugar. Veja no portão acima. O casal está na parte de baixo, no lado direito. E abaixo um recorte que fiz da figura:

E “O Beijo”, pela sensualidade que transmite, acabou se tornando uma das esculturas mais famosas de todos os tempos. 

Ao criar a estátua “O Beijo”, Rodin se inspirou no Canto V, do “Inferno” da “Divina Comédia” de Dante. Esse Canto conta a trágica história de amor entre Paolo e Francesca que termina com o assassinato de ambos pelo marido traído de Francesca.
Aqui, um resumo do conto: 

Francesca da Rimini, conhecida por sua beleza, era filha de Guido I da Polenta, governante da cidade de Ravena. Como família de Francesca travava uma longa disputa com a família Malatesta, Guido resolveu conceder a mão de Francesca em casamento para o filho mais velho da família, Giovanni Malatesta, na tentativa de um acordo de paz, porém, apesar de Giovani ser um homem muito culto e valente, ele tinha uma péssima aparência e era coxo. Sabendo que Francesca não concordaria com o casamento, Guido providenciou para que ele fosse realizado por procuração através do irmão mais novo de Giovanni, Paolo Malatesta, que era jovem e bonito.

Assim que Francesca e Paolo se conheceram, eles apaixonaram-se um pelo outro e viviam sempre juntos. Francesca gostava de ler contos sobre Lancelote e Guinevere. Um dia,  enquanto ela lia a história junto com Paolo, eles foram se envolvendo e na troca do seu primeiro beijo, foram surpreendidos e mortos por Giovanni, marido de Francesca. Após a morte, os amantes que eram levados por sua paixão, são condenados a vaguear eternamente através do Inferno. 

Esse conto mostra que tanto o amor de Lancelote, por Guinevere, esposa do rei Arthur, quanto o amor que existiu entre Paolo e Francesca é o amor cortês, um amor impossível e que os leva à morte.  Mas é também um amor sem arrependimento, que eles seguem compartilhando no inferno por toda a eternidade. 

Alguns fatos interessantes sobre a escultura:

  • O nome original da escultura “O Beijo” de Rodin era “Francesca da Rimini”, mas quando os críticos viram pela primeira vez a escultura em 1887, sugeriram um titulo menos específico: Le Baiser (O Beijo).
  • Na escultura, o livro com os contos sobre Lancelote e Guinevere pode ser visto nas mãos de Paolo. 
  • Os lábios dos amantes não se tocam realmente na escultura, sugerindo-se que eles morreram, sem seus lábios nunca terem sido tocados. 
  • Rodin queria mostrar que as mulheres não eram passivas sexualmente, na escultura, Francesca abraça Paolo, correspondendo o seu desejo.
  • A crença que o artista inspirou-se nos delírios amorosos vividos com Camille Claudel para fazer a escultura não procede, pois a estátua começou a ser esculpida muito antes deles se conhecerem.

“Histórias Minhas”

E agora darei sequência a história anterior da escultura Amor e Psiquê  contanto como a escultura “O Beijo” se tornou especial para mim.

O Beijo - Rodin - Jardin de Tuileries

O Beijo – Rodin – Jardin de Tuileries

Após a minha visita ao Louvre, caminhei com meu ex-marido (estava casada com ele na época) pelo Jardin de Tuileries em direção ao Museu de l’Orangerie. Eu queria conhecer as telas “Les Nymphéas” de Monet. Tínhamos muito a dizer um ao outro, mas não dizíamos nada.

Chegamos no Museu 40 minutos antes dele fechar. Como eu nunca tinha estado lá e não teria tempo para voltar no dia seguinte, resolvi entrar. E valeu muito à pena. Um verdadeiro santuário de beleza e paz. As cores vivas porém calmas, a predominância do azul e a luminosidade natural, me circundando, a princípio me remeteu à Santorini, parecia que estava vendo o mar azul de cima dos prédios brancos, mas depois com os tons verdes e coloridos, me sentei e dava para me imaginar num banquinho no meio do jardim de Monet, em Giverny. Me senti abençoada por ter tido essa oportunidade. Queria fica mais tempo. Mas o museu ia fechar…Bem, acho que terei que voltar! 🙂

Ao sairmos no museu, eu ainda nas nuvens, vejo uma grande estátua, bem no jardim. Me aproximo… “eu conheço essa estátua”, penso eu… Sim, é claro! Era “O Beijo” de Rodin! Sim! Ali, no jardim, sem proteção, simplesmente enfeitando o jardim, bem na minha frente, entre o Museu de l’Orangerie e a Place de la Concorde. “Meu Deus!”, penso eu, “isso é em Paris!” e corro para a estátua. Quero apreciar cada detalhe, tocá-la, fotografá-la, fazer uma selfie. Tudo para que ela possa ir um pouco comigo para casa, na minha mente, nas minhas fotos.

“O Beijo” … o beijo de um amor adúltero. A mulher que corresponde aos desejos do homem. Tudo tão parecido com a minha história. Nesse casamento falido, eu também era adúltera. Como a Francesca, tinha me casado com um homem que não conhecia.

Conheci meu ex-marido no Rio de Janeiro numa tarde de domingo. Dia 16/05/2010. Ele estava participando de um congresso de informática da medicina e hospedado no hotel Windsor na Barra da Tijuca, bem pertinho da minha casa. Eu morava no Portal da Barra. Tinha sido um final de semana de muito estudo pois eu estava fazendo o MBA e teria prova de economia financeira, matéria incompreensível para mim, e eu tinha passado o final de semana imersa nos livros. Cansada, resolvi encontrar uma amiga minha num bistrôzinho de um francês na praia, o Bangalô. Era bom fazer uma pausa e sair para caminhar ao ar livre um pouco e comer e beber algo gostoso. Eu adorava a caipirinha de lichia deles servida com grossos canudos pretos. Em alguns goles, você já tinha terminado o drinque e certamente queria outro. 🙂 Eles também tinham pastéis de camarão incrivelmente gostosos e um prato de polvo com batatas ao murro de comer de joelhos.

Coloquei um vestidinho, sandálinha rasteira, peguei meu cachorrinho e lá fui. Não estava nem um pouco a fim de me produzir. Estava a fim de relaxar e me divertir. Chegando lá, encontrei a minha amiga e cerca de 15 minutos depois chegam 4 pessoas que ocuparam a mesa ao lado. Não sei bem dizer como tudo começou, mas de repente estávamos dando dicas para eles do que fazer no Rio, especialmente na Barra. Eles não falavam português e ficaram super felizes em encontrar pessoas locais que se comunicassem em inglês. Eram 2 alemães (um homem e uma mulher) e um homem americano. A conversa foi ficando animada e com a chegada de outras pessoas do congresso e começo de um show no bistrô, acabamos juntando as mesas. O alemão acabou ficando do meu lado.

A alemã animada, queria saber onde poderiam dançar no dia seguinte, de preferência perto do hotel. “Segunda à noite, na Barra? Só se for na Nuth”, nós dissemos.
“Ah! Então vamos lá amanhã!”, disse a alemã. “E vocês vem também!”

No final da noite, me despedi de todos e voltei para casa caminhando. Estava relaxada e adormeci rápido. No dia seguinte acordei cedo, segui minha rotina, peguei meu carro e fui trabalhar. Eu era gerente da Cultura Inglesa, filial Leblon. Entre um atendimento e outro, recebo uma mensagem da minha amiga:
“E aí, vamos na Nuth mais tarde?”
“Tá maluca? Amanhã tenho que trabalhar!”, disse eu.
“Ah, a gente dá uma passadinha lá rapidinho. Tem uma cara super interessante o grupo que eu queria reencontrar.” , disse ela.
“O que? Hoje é segunda! Amanhã tenho que trabalhar”
“Ah! Pleeeease! Prometo não ficar até tarde! E olha só! Aquele pastor alemão estava bem interessado no seu Lhasa Apso…”
“kkkkkkkkkk”, digo eu. “OK! Até mais tarde!

Chegando em casa, tomei um banho demorado, coloquei um vestido colorido e sandálias de salto alto. A Nuth não era o meu lugar favorito, mas a música era boa e eu adoro dançar. Então, pensei, se a noite não for boa, pelo menos eu terei a chance de dançar um pouquinho. Minha amiga passou lá me casa e me deu carona. Estava cedo, não tinha fila. Entramos e sentamos na parte externa em baixo das árvores. Logo logo chegou o grupo e o tal alemão não saiu do meu lado. Fomos os penúltimos a sair da boite. E nos encontrarmos na noite seguinte, e na outra e em todas as outras até ele ir embora.

Mantivemos contato via Skype, ele ficou me visitando a cada 45-50 dias, nas minha férias viajei para Berlim e no final do ano, quando fui informada que deveria mudar de filial, resolvi mudar de país. Pedi demissão e em 26/04/2011 me mudei para Berlim. Em setembro/2015 nos casamos. Foi como o americano que estava na mesa dele no primeiro encontro disse: “Man, you sat at the right side of the table!” (Cara, você sentou do lado certo da mesa). É… a (minha) vida é assim. A serendipidade sempre atuando.

Mas logo ao chegar na Alemanha percebi que o homem interessante que me visitava no Rio não existia. Era workaholic, fumante aditivo e bebia em excesso. A promessa de construirmos um lar não acontecia, romance e intimidade muito menos. Vivíamos vidas paralelas, distintas e por fim e separados.

Vivi assim por 4 anos. Sou uma pessoa que normalmente busco soluções e luto por melhorias, mas nessa relação, eu só tinha sucesso quando eu tomava alguma decisão que me levasse para longe dele. Qualquer movimento de aproximação era de alguma forma questionado, inibido, ridicularizado ou brutalmente interrompido. E assim fomos nos afastando lentamente até que pouco ante de viajar para Paris, em abril/ 2015 já morávamos em apartamentos distintos em ruas diferentes.

E, como a Francesca, foi o amor com um homem casado que me fez suportar um casamento desastroso. Sim, claro que eu poderia ter terminado tudo de cara e ter voltado para o Brasil, mas não quis fazer assim. Já tinha feito isso antes em outros momentos da minha vida quando era mais jovem, Agora eu precisei ser mais fria. Tinha deixado uma vida estável e equilibrada para trás e me sentiria uma derrotada ao voltar sem ter conquistado nada. E assim fiquei. Persisti. O meu marido não reclamava. Ter um elo com alguém o satisfazia. Não precisava de mais nada. Mas eu… precisava de muito mais. Busquei saídas. Fiz um curso de alemão intensivo, comecei a escrever um blog sobre restaurantes, fiz cursos de fotografia e abri contas na Internet para compartilhá-las e passei a estudar a história de Berlim e Alemanha, o que acabou me levando a abertura da minha empresa de turismo em Berlim posteriormente.
Mas havia uma lacuna…uma tristeza… uma revolta… E foi quando conheci um homem que como eu, estava num casamento infeliz. Nos encontramos sedentos de amor e por 2 anos vivemos momentos lindos.

Pensávamos que seria uma aventura. Mas nossos encontros foram muito além do sexo. Conhecemos os mais lindos hotéis e restaurantes de Berlim, viajamos pela Alemanha e Brasil e fizemos muitas coisas juntos. Estávamos completamente apaixonados. E foi aí que eu decidi que não queria mais viver essa vida dupla. Eu queria ter o meu amor por perto. Não queria ser a número dois. Queria ser a mulher dele.

E numa tarde, quando nos encontramos antes da aula de salsa, num restaurante mexicano em frente à escola, perguntei a ele enquanto tomávamos um drinque:
“Alguma chance de me tornar a número 1?”
“Não, Cássia. Lhe amo muito mas sou casado com uma advogada e tenho dois filhos adolescentes. Se eu pedir a separação perderei tudo e não tenho condições de começar uma nova vida aos 51 anos.”
Eu já sabia que a resposta seria essa. Sempre soube. Por isso nunca tinha perguntado. Não estava preparada. Mas agora, ao saber que não tínhamos chance de viver juntos, tudo mudou para mim. Aquela foi a morte do nosso amor.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Não conseguia parar de chorar. Não fui à aula de salsa. Voltei para casa e acho que chorei uns dois dias sem parar. Mas depois desses dois dias, estava pronta para uma nova vida. Fui ao salão, cortei os cabelos bem curtos e decidi que era uma nova mulher. Continuei a encontrá-lo, mas meu coração ele não tinha mais.

E dois meses depois, em Paris, no Jardin de Tuileries, em frente à estátua “O Beijo”, eu senti um vazio. Eu tinha dois homens e não tinha ninguém.

Mas o que eu não sabia é que eu já havia encontrado o homem da minha vida e nem desconfiava… Mas isso fica para uma próxima estátua.

Vocês já devem ter visto várias versões da estátua. Saibam a origem delas:
  • Em 1888, o governo francês encomendou a primeira versão de mármore em grande escala de “O Beijo” de Rodin para a Exposição Universal de 1889, mas foi exibido publicamente pela primeira vez no “Salon de la Société National des Beaux-Arts” em 1898. Em 1900, a estátua foi movida para o “Musée du Luxembourg”, antes de ser levada para a sua localização actual, o Musée Rodin, em 1918.
  • Em 1900, Rodin fez uma cópia para Perry Edward Warren, um excêntrico colecionador norte-americano que vivia em Lewes, no East Sussex, na Inglaterra, com sua colecção de antiguidades gregas e seu amante, John Marshall. Em 1914 a escultura foi emprestado para a Câmara Municipal de Lewes a colocar em exposição pública na Câmara Municipal. Um número de puritanos locais, liderados por a diretora Miss Fowler-Tutt, opôs-se à natureza erótica da escultura. Foi devolvida à residência de Warren em Lewes em 1917, onde permaneceu armazenada durante 12 anos até a morte de Warren, em 1929. Em 1955, a Tate comprou a escultura para o país a um custo de £7.500.
  • Um grande número de bronze moldes foram feitos. O Musée Rodin relata que a “Fundação Barbedienne” sozinha produziu 319. De acordo com a lei francesa, decretada em 1978, apenas as primeiras doze podem ser chamadas de originais.

Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Beijo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisca_de_R%C3%ADmini
http://renegirard.com.br/blog/?p=23
https://owlcation.com/humanities/Famous-Love-Stories-in-History-Paolo-and-Francesca
http://www.bbc.co.uk/culture/story/20151119-the-shocking-story-of-the-kiss