As Princesas

Essa foi a primeira escultura dupla de duas figuras femininas retratadas no tamanho natural                                   

As Princesas

– Essa foi a primeira escultura dupla de duas figuras femininas retratadas no tamanho natural.

“Histórias Estátuas”

Escultor – Johan Gottfried Schadow (1764 – 1850)

Johann Gottfried Schadow

Fonte: Wikipedia (https://de.wikipedia.org/wiki/Johann_Gottfried_Schadow)

Nascido em Berlim, Schadow foi um dos maiores escultores do classicismo alemão. Ele fundou a Escola de Escultura (Bildhauerschule) de Berlim e Reinhold Begas e Christian Daniel Rauch foram seus alunos.

Por ser tão renomado, Schadow trabalhou como escultor oficial da corte prussiana a partir de 1788 e produziu mais de 200 obras em cerca de 50 anos de trabalho.
A sua escultura mais famosa é a “Quadriga” (1794) que fica no topo do Portão de Brandemburgo.


Mas sem dúvida a sua obra mais graciosa é a estátua “As Princesas”.


As Princesas / Die Prinzessinnengruppe – cópia Johan Gottfried Schadow, 1795 – Palácio de Charlottenburg- Berlim
Quem eram as princesas?

A estátua retrata as princesas da Prússia Luísa e Frederica, filhas do príncipe alemão Carlos II de Mecklemburgo-Strelitz, que se tornou governador geral de Hanôver.

Em 1793, numa noite organizada pelo tio das princesas, em Frankfurt, Luísa, com 17 anos é apresentada ao príncipe herdeiro Frederico Guilherme, de 23 anos, que fica tão impressionado com a moça que decide que quer se casar com ela. Na mesma noite, a irmã de Luísa, Frederica, com 15 anos, também chama a atenção do irmão mais novo de Frederico Guilherme, Luís Carlos. O rei Frederico Guilherme II da Prússia, encantado com o charme e beleza das mesmas, acerta para que os seus dois filhos se casem com elas.

No dia 24/04/1793 eles celebram um noivado duplo. Oito meses depois, Luísa casa-se com o príncipe herdeiro Prussiano Frederico Guilherme, em 24/12/1793, e dois dias depois, em 26/12/1793, Frederica, casa-se com o príncipe Luís Carlos.

Detalhe de As Princesas / Die Prinzessinnengruppe Johan Gottfried Schadow - 1795 Antiga Galeria Nacional - Berlim

Detalhe de As Princesas / Die Prinzessinnengruppe
Johan Gottfried Schadow – 1795
Antiga Galeria Nacional – Berlim

Como a escultura tão bem mostra, as irmãs eram muito unidas, apesar da diferença que havia entre elas: Luísa, a princesa da direita, que usa um lenço no pescoço, olha para frente, prevendo a sua incumbência como futura rainha. Frederica se apoia em Luísa e tem um olhar sonhador e coquete.
Na verdade, apesar das irmães princesas terem se casado com irmãos príncipes, elas tiveram histórias bem diferentes.

Vamos conhecer melhor cada uma delas.

Luísa de Mecklemburgo-Strelitz (1776 -1810)
Rainha Luísa Elisabeth Vigée-Lebrun, 1801 - Palácio de Charlottenburg - Berlim

Rainha Luísa Elisabeth Vigée-Lebrun, 1801 – Palácio de Charlottenburg – Berlim

Quatro anos após o seu casamento, o marido de Luísa sobe ao trono como Frederico Guilherme III, rei da Prússia e ela se torna sua rainha consorte. Por ser inteligente, carismática e caridosa, Luísa se torna muito popular.

Luísa se interessava por política e ajudou o rei a formar poderosas alianças. Ela se tornou uma figura poderosa no governo, chegando até a participar das negociações de paz com Napoleão, e sendo vista por seus súditos como “o nacionalismo prussiano personificado”.

Seu casamento foi feliz e ela teve dez filhos com o rei, mas Luísa morreu muito jovem, repentinamente, de uma doença não identificada, com apenas 34 anos. Ela foi enterrada no jardim do Palácio de Charlottenburg onde foi construído um mausoléu para ela com a estátua de Christian Daniel Rauch.

Tampa do sarcófago da rainha Luísa Christian Daniel Rauch, 1812 Mausoléo da rainha Luísa nos jardins do Palácio de Charlottenburg - Berlim

Tampa do sarcófago da rainha Luísa Christian Daniel Rauch, 1812
Mausoléo da rainha Luísa nos jardins do Palácio de Charlottenburg – Berlim

Frederica Luísa Sofia Carlota Alexandrina de Mecklemburgo-Strelitz (1778 -1841)

Princesa Frederica da Prússia - Johann Tischbein, 1796

Princesa Frederica da Prússia – Johann Tischbein, 1796
Fonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Friederike_von_Mecklenburg-Strelitz

Frederica teve 3 filhos com o príncipe Luís Carlos, mas não foi feliz com ele. Luís Carlos preferia a companhia de sua amante e deixava Frederica sozinha. Em contrapartida, Frederica se diverte com o seu primo, o galante Luís Ferdinando, príncipe da Prússia. Após 3 anos de casamento, em 1796, Luis Carlos, o marido de Frederica, morreu de difteria.

Frederica se mudou então para o palácio de Schönhausen com seus filhos. Com apenas 18 anos e muito bonita, ela atrai a atenção de muitos homens. No ano seguinte, em 1797, seu primo Adolfo, o duque de Cambridge, sétimo filho do rei Jorge III do Reino Unido pede ao pai permissão para se casar com Frederica, mas o rei, pressionado por sua esposa, Carlota, tia de Frederica, recusa.

Em 1798 Frederica fica grávida de Frederico Guilherme, príncipe de Solms-Braunfels. O príncipe reconheceu a paternidade da criança e pediu a sua mão em casamento. Ela aceitou para evitar um escândalo. Em 1805 ele perde seu posto militar por motivo de saúde e Frederica tem que sustentá-lo.

Em 1813 Frederica conhece o príncipe Ernesto Augusto, duque de Cumberland, o quinto filho do rei Jorge III e eles se apaixonam. Frederica pede ao rei da Prússia autorização para se separar do seu marido, o príncipe de Solms-Braunfels. O rei aceita, a família de Frederica e até mesmo o seu marido concordam. Apenas a mão do noivo, sua tia Carlota, é mais uma vez contra. Porém, em 1814, o marido de Frederica morre de forma súbita. Livre, ela obtém a permissão do parlamento britânico e se casa em 1815, com Ernesto Augusto.

Eles tem um casamento feliz e Frederica tem mais três filhos com Ernesto Augusto.

Em 1837, o rei Guilherme IV do Reino Unido e Hanôver morre. Seu único herdeiro é a filha do príncipe Eduardo, Duque de Kent, a rainha Vitória, que torna-se rainha do Reino Unido. Mas como Hanôver era regida pela lei sálica que não permitia mulheres na sucessão do trono, Vitória não pôde herdar o trono de Hanôver. O descendente masculino seguinte era Ernesto Augusto, o marido de Frederica. Ele se torna o rei Ernesto Augusto I de Hanôver e Frederica sua rainha-consorte.

Frederica morreu em 1841 com 63 anos.

Busto de Friederike von Preußen Johan Gottfried Schadow, 1795 Cópia em gesso da minha coleção pessoal

Busto de Friederike von Preußen
Johan Gottfried Schadow, 1795
Cópia em gesso da minha coleção pessoal

 

A Estátua

Após as princesas se casaram com o príncipe consorte da Prússia e seu irmão, o rei prussiano Frederico Guilherme II encomendou a Schadow um busto das duas irmãs. Em 1795 dois bustos separados em gesso ficaram prontos.

Em seguida, o príncipe Frederico Guilherme encomenda a Schadow uma estátua dupla de sua mulher e sua irmã. Para tal, o escultor ganhou uma sala no palácio onde eles moravam, o Kronprinzpalais (o Palácio do Príncipe Herdeiro, em Berlim) onde as princesas posavam para ele. Enciumado, o príncipe costumava estar presente sempre que Shadow estivesse com as irmãs.

Quando a escultura ficou pronta, Frederico Guilherme ficou chocado com o resultado. Ele achou que as irmãs foram retratadas de forma muito sensual, até mesmo erótica, o que ele considerou absolutamente inapropriado para uma futura rainha da Prússia. O tecido fino dos vestidos delas mostrava a forma de seus corpos e suas curvas. “Para mim, é fatal!”, disse Frederico Guilherme.
Mesmo assim, o rei autoriza que a escultura seja apresentada na Exposição da Academia de Arte em 1795 e posteriormente, a sua versão em mármore branco de Carrara, é também apresentada na Exposição da Academia de Arte em 1797.

Palácio de Charlottenburg

Palácio de Charlottenburg

Todos comentaram sobre a beleza das irmãs. O lenço que Luísa usa na estátua vira moda. O acessório saiu num revista de moda e virou peça obrigatória do vestuário das mulheres prussianas na época.

Fonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Prinzessinnengruppe

Fonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Prinzessinnengruppe

Em 1797, o rei Frederico Guilherme II falece. Seu sucessor, Frederico Guilherme III, insiste então, que a estátua não deveria ficar exposta ao público. Schadow teve então que levar a escultura de volta para sua oficina. Três anos depois ela retornou para o palácio de Berlim mas foi colocada num quarto de hóspedes, escondida do público e acabou caindo no esquecimento.

Depois de vários paradeiros, a versão original em mármore da escultura “As Princesas” se encontra hoje na Antiga Galeria Nacional. Na minha opinião esse é o melhor lugar para as princesinhas, no centro da Ilha dos Museus, no coração de Berlim!

As Princesas / Die Prinzessinnengruppe Johan Gottfried Schadow, 1795 Antiga Galeria Nacional - Berlim

As Princesas / Die Prinzessinnengruppe
Johan Gottfried Schadow, 1795
Antiga Galeria Nacional – Berlim

E hoje em dia, cópias da estátuas das princezinhas podem ser vistas em vários lugares da Alemanha e pequenas cópia são vendidas Ilha dos Museus.

As Princesas / Die Prinzessinnengruppe Johan Gottfried Schadow, 1795 Cópia no Hotel Adlon - Berlim

As Princesas / Die Prinzessinnengruppe
Johan Gottfried Schadow, 1795
Cópia no Hotel Adlon – Berlim

“Histórias Minhas”

As Princesas / Die PrinzessinnengruppeJohan Gottfried Schadow, 1795  Antiga Galeria Nacional - Berlim

As Princesas / Die PrinzessinnengruppeJohan Gottfried Schadow, 1795 
Antiga Galeria Nacional – Berlim
Cresci para ser como a princesa Luísa. Era esperado que eu me casasse e tivesse uma união duradoura com um único parceiro.
 
Mas minha vida amorosa acabou sendo mais parecida com a da princesa Frederica. Me casei legalmente 4 vezes e estou na minha segunda união estável.
 
Cresci numa família que tinha um lado bastante conservador. 
 
Em casa, aprendi que as “boas” moças deveriam ter sexo apenas depois do casamento e exclusivamente com o seu marido. As moças que engravidavam antes do casamento era muito mal vistas pelos meus pais. E para se certificarem que isso não aconteceria comigo, eles limitavam muito a minha liberdade. Eu não podia ir a festas sozinha nem viajar com amigos. Meu pai ia sempre me levar e buscar nas festas ou meu irmão me acompanhava.
 
Só fui dar o meu primeiro beijo na boca aos 15 anos.
 
Após isso, me foi permitido namorar, mas desde que eu trouxesse os namorados na minha casa e nós só podíamos viajar se fossemos junto com a minha família. Até na barraca de camping, meu pai nos colocava separados. 
 
Não havia liberdade nem confiança.
 
Mas por outro lado, minha família era considerda bastante moderna para a época .
 
Cresci assistindo junto com minha mãe, o programa “Comportamento Sexual” da Marta Suplicy na TV Mulher e a série Malu Mulher com Regina Duarte. 
Com a chegada da emancipação feminina passei a ler livros como  “O Complexo de Cinderela” e de “Mariazinha a Maria” e até o famoso Relatório Hite que minha mãe comprou para ela ler e que sempre deixou disponível pela casa para quem quisesse ler, inclusive eu que tinha 18 anos. 
 
Eram dois lados ambíguos. Dois mundos paralelos.

Um mundo de total abertura sobre a sexualidade, vinda das informações que eu obtinha nos livros e na TV. 
E outro com regras rígidas que me obrigava a me manter virgem, sucumbindo a todos os meus desejos, até me casar. 

E eu, com pouca liberdade para sair, namorava apenas os meninos da escola, da minha idade, e estávamos muito longe de termos independência financeira e de podemos pensar em casamento. 
 
Mas aconteceu algo que mudou tudo.
 
Com 19 anos, li na revista Contigo, um anúncio de um rapaz 9 anos mais velho do que eu procurando uma moça para um relacionamento sério. Trocamos cartas, e 3 meses depois do nosso primeiro encontro nos casamos. Eu tinha apenas 20 anos. Foi preciso meus pais assinarem uma permissão para eu me casar. Meu primeiro marido era um oficial de náutica da Marinha Mercante e passei minha lua-de-mel à bordo de um navio graneleiro da Docenave com destino a Washington e Houston nos EUA. 
 
Essa talvez tenha sido a maior loucura da minha vida.
 
Só muitos anos depois é que fui descobrir, em terapia, que esse casamento tinha sido na verdade, um passaporte para a minha libertação. Através do casamento consegui sair de casa. Mas na época não vi assim. Me apaixonei por um rapaz que viajava muito, que conhecia o meu ídolo Bob Geldof e que tocou a música “I don’t like Mondays” no toca-fitas do seu carropara mim. Nossa! Isso era o máximo!!! Essa era a minha música favorita quando morava em Londres e ninguém a conhecia no Brasil da ditadura militar. E por ser mais velho que os meninos da escola, o rapaz tinha um Passat, me mandou flores e me deu um anel de brilhante. Tudo muito novo e apaixonante para uma sonhadora menina de 19 anos.
 
Mas deu tudo MUITO errado. 

Além de alcoólatra, meu marido tinha uma sexualidade não muito bem definida, talvez tivesse medo de assumir sua homossexualidade, não sei dizer ao certo, mas parecia que o nosso casamento servia apenas como uma fachada.
Depois de 3 anos casada eu não era mais virgem porém continuava sem nunca ter tido um orgasmo.
Ele não tinha muito interesse em mim equando tínhamos relações eu não entendia bem porque eu não me satisfazia sexualmente. Ele dizia que eu era “frígida” e eu sofria muito sem achar uma explicação para o meu problema. Até que um dia descobri que ele transava com casais. 
 
Me separei.
 
Voltei para a casa dos meus pais. E voltaram as regras. Mais uma vez eu não podia chegar em casa depois da meia-noite, etc, etc, etc. “O quê??? De novo???”, pensei eu. “Não. Nunca mais!” 
 
Me separei dos meus pais. 
 
Fui morar sozinha na Rua 28 de Setembro, em Vila Isabel.
Eu já trabalhava, e apesar de não ganhar muito, já era independente.
Meu apartamento era simples, mobiliado com móveis baratos e de segunda mão mas era tudo muito caprichado e eu me sentia muito feliz.
 
E aprendi que podia ter orgasmos. 
 
Dois anos depois conheci um lindo e simpático engenheiro de uma família portuguesa. Depois de um ano de namoro nos casamos. Eu já morava na Tijuca, na rua São Francisco Xavier, esquina com a Av. Maracanã e ele veio morar comigo. Tínhamos acabado de nos formar e em seguida conseguimos empregos estáveis em grandes empresas. Compramos os nossos primeiros carros zero kilômetro e em seguida um apartamento próprio no Engenho Novo. 
 
Mas, ele levava a vida sempre na brincadeira. Chegava constantemente atrasado e faltava muito o trabalho. Não tinha responsabilidade. Acabou sendo demitido. Nós tínhamos acabado de comprar um chalé nas montanhas, em Nova Friburgo, e o dinheiro da recisão foi todo para a obra da casa. Passei um ano arcando com todas as despesas praticamente sozinha e as brigas começaram. Ele não corria atrás, não tinha emprego e as contas se acumulavam e as brigas aumentavam… Até que um dia, ele chegou em casa de madrugada e eu descubri que tinha estado com outra mulher.
 
Me separei.
 
Como eu adorava o chalé das montanhas, resolvi ficar com ele. Na verdade, o chalé valia mais que o nosso apartamento e para ficar com ele tive que pagar uma mensalidade ao meu marido por 2 anos, comprando assim a parte dele. Para isso, tive que voltar a morar na casa dos meus pais, até me acertar financeiramente. 
 
E resolvi também arrumar um segundo emprego no turno da manhã para aumentar a minha renda. Fui trabalhar na Escola Suíço-Brasileira em Santa Teresa. Logo nos primeiros dias percebi que meu chefe, um suíço, estava muito sorridente para o meu lado. Dois anos depois estávamos morando juntos.
 
Ele era um homem lindíssimo, muito carismático e sedutor. Tinha muitos amigos e não parava em casa. Passava as tardes depois do trabalho na praia. Em alguns dias jogava tênis, em outras noites jogava cartas. Eram muitas atividades fora do casamento, que me excluíam.  Às vezes eu sentia ciúmes e brigávamos. Mas vivíamos bem. Até que o país entrou num momento econômico difícil e com o plano Collor ele resolveu que queria voltar para a Suíça. Foi então que nos casamos e deixamos o Brasil. 
 
Desde a minha primeira semana em Zurique, me senti só. Dormíamos em quartos separados e ele tinha milhões de atividades que não me incluíam. Quando estava em casa, ele tinha sempre pilhas de provas para corrigir e ficava horas trancado num quarto e pedia para não ser incomodado. 

Estando em um país estrangeiro, sem falar a língua, sem ter muito o que fazer, eu me senti, pela primeira vez na vida, deprimida. Ficava procurando atividades para preencher os meus dias. Estudava alemão, mas o povo falava o Schwizerdütsch, um dialeto suíço que eu não conseguia entender. Arrumei um emprego como professora de português num curso de línguas, mas não tinham muitas pessoas interessadas em aprender português. O que eu mais gostava de fazer e que mais me preenchia era assistir palestras em inglês no Instituto Jung. Adorava pegar um barco e ir até a antiga casa do psicoterapeuta, na beira do Zürichsee. Mas as paletras não eram frequentes e eu ficava muito tempo sozinha em casa. E para piorar comecei a ter reações alérgicas aos 2 gatos do meu marido. Cheguei a ser hospitalizada com fortes crises de asma duas vezes.
 
Me separei.
 
Voltei para o Brasil, para a casa de meus pais de novo. Consegui recuperar o meu emprego na Cultura Inglesa, onde tinha trabalhado 9 anos. 
 
Dois anos depois, estava no antigo Ballroom no Humaitá com uma amiga, num show do Celebrare que eu adorava, quando conheci um economista. Um homem magro, pequeno, que usava óculos e de sorisso simpático.

Esse talvez tenha sido o maior amor da minha vida. Ainda hoje, ao escrever, sinto um aperto no peito ao pensar nele. Éramos jovens, bonitos, bem sucedidos e livres. Perdidamente apaixonados um pelo outro, nosso sexo era maravilhoso e passávamos todo o nosso tempo livre juntos. 1 ano e meio depois fui morar com ele no Humaitá.

Dois anos depois de estarmos juntos, fomos promovidos no trabalho. Eu passei a gerenciar filiais e ele se tornou o superintendente econômico da sua firma. Foi uma fase financeiramente muito próspera e compramos um apartamento com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, carros melhores e passamos a viajar. Fizemos muitas trilhas pelo interior do Brasil no nosso Suzuki 4×4. Visitamos o Pantanal, a Chapada Diamantina, Lençóis no Maranhão, Canela e Gramado e quase todo o nordeste do Brasil. Nossa vida era pura aventura. Em seguida viajamos para Inglaterra, França, Espanha, EUA, Patagônia e Perú. 
 
Mas além de fartura, o dinheiro nos trouxe muitos problemas. 

Meu marido se tornou um homem de certa forma poderoso, com muita grana, mas era mesquinho. Investia seu dinheiro em equipamentos caros, carros, bicicletas caras (era ex tri-atleta), objetos de arte e decoração. Chegou a contratar duas arquitetas para reformar o nosso apartamento. “Por favor, fique fora do planejamento. Eu estou pagando, então eu definirei tudo com as arquitetas.”, disse ele uma vez para mim. Eu não ganhava pouco, mas ganhava muito menos e não podia acompanhar o seu padrão e portanto contribuia menos. Fiquei muito aborrecida com isso. Eu era um estranha na minha própria casa. Não preciso nem dizer que passei a torcer contra, comemorando cada coisa que dava errada na obra. 
A partir daí a relação começou a ficar difícil. Ele cada vez mais esnobe, passou a debochar de minhas coisas e roupas. Só grife tinha valor. Meus amigos também foram se tornando muito simples para ele. Passei a viver num mundo que não me agradava. Muita ostentação e pouca profundidade. 

Ele, que adorava passar os finais de semana no meu chalé em Nova Friburgo, curtindo o frio, tomando vinho e fazendo pizzas comigo lá, começou a achar tudo muito fora do seu padrão. Em vez de investir em melhorias, só criticava e reclamava.

Decidi vender o meu querido chalé em Nova Friburgo. Com o dinheiro, comprei um apartamento na Barra da Tijuca. Gostava de passar os finais de semana lá, ir à praia em frente à rua John Kennedy e depois relaxar na rede na minha enorme varanda com vista para a Pedra da Gávea e o mar. Ah! Como me sentia feliz ali. Mas, o apartamento também auxiliou para o fim da nossa relação. Depois dele, cada vez que brigávamos eu fazia as malas, pegava o Robinho, o meu Yorkshire, e ia para a Barra. Depois de alguns dias, ele ia até lá, conversávamos, fazíamos as pazes e eu voltava para a Lagoa. Não sei dizer quantas vezes fiz isso. Me lembro de algumas vezes, no meu carro, indo para Barra sozinha, no meio da noite, chorando e cantando alto “Não te quero mais!” da Martinália. Tudo muito dramático sempre.

Vivemos 7 bons anos juntos, mas o último ano foi nesse vai e vem. E numa viagem a Machu Picchu, eu finalmente dicidi que não queria mais viver assim e coloquei um ponto final na nossa história.
 
Me separei.
 
Minha carreira se solidificou e em 2009 fui convidada para gerenciar a filial Leblon da Cultura Inglesa e a fazer o MBA no Ibmec. 

Em 2010, um ano após ter me separado definitivamente do economista, conheci um físico alemão num restaurante. Nos apaixonamos e depois de 1 ano de namoro me mudei para Berlim. Para saber mais detalhes sobre essa história, leia o capítulo de “O Beijo”.
 
 Foram 04 anos de muitas viagens e muitas brigas. 

Esse foi o homem mais inteligente que conheci na vida. Mas foi também a relação mais desafiadora de toda a minha vida. Sofri muito. Vivia com o rosto inchado de tanto chorar. Ele competia comigo, me desestabilizava, me abandonava, etc, etc… Foram anos muitíssimo difíceis. 
 
Mas diferente da minha experiência na Suíca, dessa vez eu resolvi que não ia voltar para o Brasil. Berlim é uma cidade fantástica e eu decidi que ia ficar. E aos poucos fui conquistando meu espaço e independência. Quando cheguei em Berlim, alugávamos dois apartamentos no mesmo prédio. Um, onde ele trabalhava e o outro onde morávamos. Aos poucos cada um ficou com um apartamento e nos encontrávamos apenas para jantar. Não tínhamos mais intimidade e cada vez nos afastávamos mais. 4 anos depois, passamos a morar em apartamentos em diferentes prédios. Nos encontrávamos esporadicamente e tínhamos vidas independentes. Apesar dele me dar total liberdade, ainda havia um laço e eu não me sentia livre.
 
Me separei.
 
Montei uma agência de turismo personalizado em Berlim e encontrei um novo amor, com quem moro hoje em dia. Temos uma vida alegre e harmoniosa e pela primeria vez na vida me sinto realizada e extremamente feliz. 
 
E não quero me separar.
 
Agora vamos voltar às princesas Luísa e Frederica.
 
Desde que conheci a história delas, fiquei fascinada. A princípio me identifiquei com a Luísa e sua força, retidão e determinação. Mas depois me apaixonei por Frederica, que como eu, viveu muitas paixões. 
 
 
Mas não consigo escolher apenas uma. Sinto que às vezes sou mais Frederica, em outras sou mais Luísa. 
 
As duas princesinhas vivem dentro de mim se intercalando e se complemetando.
 
E não vou jamais separá-las.

As Princesas / Die PrinzessinnengruppeJohan Gottfried Schadow, 1795  Antiga Galeria Nacional - Berlim

As Princesas / Die PrinzessinnengruppeJohan Gottfried Schadow, 1795 
Antiga Galeria Nacional – Berlim
Fontes:
 
  • RIDLEY, Jenny. Queen Luise in Berlin. Jennifer Ridley 2016.
  • Museum Island Berlin and Its Tresures. Staaliche Museen zu Berlin and bpk – Bildagentur für Kunst, Kultur and Geschichte 2009.
  •  https://de.wikipedia.org/wiki/Prinzessinnengruppe
  • https://de.wikipedia.org/wiki/Johann_Gottfried_Schadow
  • https://de.wikipedia.org/wiki/Luise_von_Mecklenburg-Strelitz
  • https://de.wikipedia.org/wiki/Friederike_von_Mecklenburg-Strelitz